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Gaúchos terão férias sem diversão na pandemia da Covid-19

Crianças vão continuar em casa sem poder brincar com amigos, visitar os avós ou correr ao ar livre; pesquisas revelam impactos na saúde mental que podem intensificar neste período.
Foto: Ilustração

As férias escolares começaram depois de milhões de crianças e adolescentes no mundo todo passarem por uma mudança de rotina intensa devido à pandemia do Coronavírus. Agora, sem nem as aulas remotas, elas vão continuar em casa sem poder brincar com seus amigos, visitar os avós ou correr ao ar livre. Pesquisas revelam que a pandemia tem impactos significados na saúde mental de crianças e adolescentes que podem ser intensificados neste período. Profissionais da área da saúde apontam o possível aumento de ansiedade, estresse e depressão causados por evento traumático massivo. O que pode ser evidenciado nesse período de férias. 

Fernanda Guimarães tem um filho de 12 anos que acaba de entrar de férias. Ela conta que Luís Henrique vem sofrendo com efeitos psicológicos com a pandemia. “Ele está bastante estressado, engordou muito e não consegue dormir à noite”. Além da insônia, Fernanda diz que Luís Henrique aumentou muito o tempo que passa em frente ao videogame e ao celular. “No celular, ele fica o dia inteiro e tenho que ficar monitorando para que ele não entre em sites indevidos para sua idade”, conta. A mãe está preocupada com as condições de férias que seu filho vai passar no “novo normal”.

“Antes, quando ele estava de férias, a gente ia para Porto Alegre ou íamos para a casa de minha mãe, que fica em condomínio fechado, onde ele pode andar de bicicleta e correr livremente”, declara Fernanda. No atual contexto, Luís Henrique não sai mais de casa, não pode visitar a avó que faz parte do grupo de risco e nem brincar na praça em frente ao condomínio onde moram. A mãe revela que Luís ainda tem problemas de concentração que foram intensificados com o isolamento. 

“Ele é muito ativo e no apartamento pequeno não tem onde ele extravazar sua energia, a ansiedade dele aumenta muito e ele quer comer o tempo inteiro”, revela Fernanda. Um estudo feito pela Kaiser Family Foundation nos Estados Unidos, ao fim do mês de março, revelou que 46% de adultos pais de crianças e adolescentes menores de 18 anos sentem que os efeitos da pandemia tiveram um impacto negativo sobre a sua saúde mental de seus filhos.

Transtornos

A Universidade de Kentucky publicou uma análise do impacto das medidas de isolamento como controle de doenças, em 2013. O estudo aponta que 30% das crianças confinadas e 25% de seus pais atendiam aos critérios para diagnosticar transtorno de estresse pós-traumático. Um estudo recente, executado na província chinesa de Hubei, revela aumento de sintomas depressivos e de ansiedade em uma amostra de 2.330 estudantes, depois de pouco mais de um mês de confinamento devido à pandemia.

Impacto emocional

O Grupo de Pesquisa, Análise, Intervenção e Terapia Aplicada com Crianças e Adolescentes da Universidade Miguel Hernández da Espanha, começou um estudo pioneiro que faz análises do impacto emocional do confinamento em crianças italianas e espanholas, por meio da aplicação de 1.143 pesquisas com pais que têm filhos de 3 a 18 anos. O objetivo do estudo é medir o efeito de confinamento em crianças e adolescentes e transformar os resultados em um tipo de guia para pais e profissionais detectarem e prevenirem esses possíveis problemas.

Os resultados das pesquisas apontam que a quarentena imposta devido à Covid-19 realmente abala o psicológico das crianças. Nove de cada 10 pais consultados relataram mudanças no estado emocional e comportamental de seus filhos, em comparação com antes da quarentena. 

Houve também mudança de hábitos dentro de casa: 25% das crianças passaram a comer mais do que o habitual, 73% usaram dispositivos eletrônicos por mais de 90 minutos diários, em comparação com 15% que faziam isso antes da quarentena, e somente 14% praticavam 60 minutos diários de atividade física, que é o recomendável segundo a Organização Mundial da Saúde.

Estresse é fator de risco para transtornos mentais 

De acordo com o professor de psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, Guilherme V. Polanczyk, as consequências do isolamento social, da ameaça contra a vida e das perdas econômicas sobre a saúde mental da população podem vir a ser uma “segunda onda” da pandemia, com enormes custos sociais. Em um artigo de sua autoria publicado no jornal da USP, ele afirma que o estresse emocional é um dos fatores de risco mais importantes preveníveis para os transtornos mentais. 

O médico explica que os transtornos desencadeados pelo estresse podem acontecer na infância ou até mesmo anos depois da ocorrência da situação estressora. Segundo Guilherme, o contexto que acompanha a pandemia chega aos cérebros infantis por meio de informações e pelas emoções de seus pais e outros adultos significativos, pelas mudanças da rotina e do ambiente ao longo do tempo. Ele adverte que problemas de saúde mental não estão relacionados apenas ao medo da infecção causada por um vírus. Ela também está ligada com distanciamento social causado pela pandemia. 

Estudos preliminares mostram a relação entre longos períodos de quarentena ao aumento de angústia psicológica em forma de aparecimento de pesadelos, terrores noturnos, medo de sair de casa de que seus pais voltem ao trabalho, irritabilidade, hipersensibilidade emocional, apatia, nervosismo, dificuldade de concentração e até um leve atraso no desenvolvimento cognitivo da criança. Guilherme alerta que se as consequências da pandemia sobre a saúde mental de crianças forem antecipadas e houver entendimento de como os transtornos mentais se instalam, eles podem ser prevenidos.

Prevenção

O psiquiatra esclarece que o cérebro de cada criança é distinto e deve reconhecer os dados recebidos de formas particulares. Podem surgir pensamentos e emoções que aparecerão como sinais de estresse. Eles podem ser transmitidos de forma direta, por meio da expressão de medo, insegurança ou indireta com irritação e insônia. Os pais e o restante da família poderão reconhecer esses sinais, processá-los e retransmitir às crianças respostas para gerar acolhimento, segurança e aprendizado para manter um ciclo positivo. 

No entanto, o médico alerta que os pais podem não reconhecer os sinais de estresse de seus filhos. Em outras ocasiões podem até reconhecê-los, mas não responder de forma adequada, podendo gerar mais medo, insegurança e desamparo e estabelecer um ciclo negativo, prejudicial para a criança ou adolescente. 

Segundo o psiquiatra de crianças e adolescentes, se o infante processar adequadamente os estímulos e o estresse resultante é retransmitido de forma positiva, provavelmente haverá o fortalecimento emocional dessa criança. Mas, se o contrário acontecer com o aumento do estresse, problemas emocionais ou comportamentais e até mesmo transtornos mentais podem se instalar. 

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